sexta-feira, 13 de outubro de 2017

HARRY POTTER E OS TALISMÃS DA MORTE: PARTE 2 (2011)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM

Título Original: Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 2
Realização: David Yates
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Michael Gambon, Ralph Fiennes, Alan Rickman, Maggie Smith, Helena Bonham Carter, Jason Isaacs, John Hurt, Kelly Mcdonald, Helen McCrory, Matthew Lewis, Bonnie Wright, Julie Walters, Robbie Coltrane

Crítica:

A BATALHA FINAL

Words are (...) our most inexhaustible source of magic.

E tudo culmina aqui: Hogwarts é, como não podia deixar de ser, o derradeiro refúgio de Harry Potter, o palco do confronto final - e decisivo - entre as forças do Bem e do Mal. Os Talismãs da Morte: Parte 2 não desilude: é um espectáculo visual sem antecedentes na série, verdadeiramente épico e colossal, e um clímax de emoções operático, onde as personagens se superam e dão o tudo por tudo em nome da amizade e da bondade. Afinal, it is the quality of ones convictions that determines success, not the number of followers, como diz às tantas o professor Lupin. E não deixa de ser uma moral comovedora e, no fim de contas, encorajadora: a união de poucos, quando genuína e bem-intencionada, pode derrotar exércitos de egos. Se o mundo compensasse sempre aqueles que amam, viveríamos certamente num mundo melhor, num mundo ideal. Esta é a mensagem, a potência e a beleza da fantasia.

Os cenários de Stuart Craig, designer de produção, e da restante equipa de decoração revelam-se, uma última vez, ao mais alto nível: das profundezas do banco Gringotts à fartura de adereços da Sala das Necessidades, dos destroços do velho castelo, ainda em chamas, à plataforma 9 3/4 da Estação de King's Cross. Sempre aliados às infindas possibilidades dos efeitos digitais, que tanto mais do que raios reluzentes e pirotecnia criaram. Possibilitaram aranhas, trolls, dragões, cidades e um mundo.

Alexander Desplat entrega toda a sua sensibilidade na concretização de partituras e arranjos notáveis, que catapultam a saga para uma seriedade bem-vinda. Assistimos a um filme sério - sentimo-lo desde o primeiro frame, como aliás já nos tinha prevenido a parte primeira, igualmente bela e deslumbrante pela arte visual de Eduardo Serra. Com a melhor equipa, David Yates só poderia, uma vez mais, ter todas as condições para brilhar. E tudo brilha, tudo está certo. O tom e o peso da despedida está lá, nos sons e nos silêncios, em cada quadro. Como se tudo estivesse condenado e prestes a desaparecer para sempre. Essa sensação, sendo omnipresente e esmagadora, tende a vergar-nos e obter a nossa reverência. E a nossa admiração. Que bom, que uma tão apaixonante saga acaba em crescendo e, tecnica e qualitativamente, tão bem.

Cada golpe contra a fortaleza, cada pedra que cai e se quebra é um duro golpe no nosso próprio coração. Hogwarts é a casa de Harry e é a nossa casa, que lutamos por defender a todo o custo. Destruir Hogwarts é atentar contra a memória dos que a defenderam ao longo de séculos, é pôr em risco a formação do futuro, é destruir um símbolo. Ali, de varinhas ao alto, ferem-se o corpo e a alma. Morre, definitivamente, a inocência. O universo de J. K. Rowling, que começou num conto infanto-juvenil, assume-se, enfim e inequívocamente, dotado de um espírito ambicioso, complexo e por demais adulto.

Em busca da destruição dos últimos horcruxes, desvendam-se mais segredos. Cada pedaço de alma de Tom Riddle, aprisionado num objecto mágico, encerra uma história mal-contada, atraindo o espectador para mais detalhes. Detalhes que parecem nunca mais acabar. Basta estar com atenção. Depois, os talismãs, outros que tais, amuletos que se ramificam com o passado, com nomes, com outras tantas histórias interligadas. Ficamos a saber mais sobre Dumbledore e as suas motivações, ficamos a saber mais sobre Harry e Voldemort e as suas conexões, ficamos a saber mais sobre Snape e a sua riqueza enquanto personagem, plena de carácter, camuflada por aparências e julgamentos. Apaixonamo-nos, definitivamente, por Snape. Que twist, não há como não ficar a adorar a criação de Rowling e, talvez ainda mais, a memorável e eterna interpretação de Alan Rickman. Do saudoso Alan Rickman. Vibramos, mais do que nunca, com a lealdade e o íntimo protector da professora McGonagall (Maggie Smith), assim como acontece com a Sra. Weasley (Julie Walters). Emocionamo-nos e aplaudimos a coragem de Neville Longbottom (Matthew Lewis), desde os primeiros filmes gozado ou dado como cobarde ou sem valor. Até que absolvemos Draco Malfoy (Tom Felton), clara que está a sua fraqueza de espírito.

Nos últimos momentos, lembramo-nos das alegrias que Hogwarts nos proporcionou e temos pena... pena que a saga esteja a instantes de acabar, ainda que possa, mereça e deva ser revisitada sempre, tantas vezes quantas desejarmos. Quando o tema principal irrompe e o ecrã desvanece a negro, suspiramos de tranquilidade. Saimos do filme com o coração cheio. Refletimos sobre as palavras de Dumbledore e encontramos nelas a voz de J. K Rowling. As palavras fizeram magia - é esse o poder da literatura. No cinema, a magia faz-se pelas palavras, pelas imagens em movimento, pelos sons, pela música. É uma combinação de artes. Daí ser uma arte tão completa, porque resulta da fusão de tantas. A magia aconteceu diante dos nossos olhos, no ecrã. Acompanha-nos agora nas nossas melhores recordações. Mas não é por isso, parafraseando Dumbledore, que a magia não existe, que a magia não é real. E esta certeza, um tanto ou quanto poética, serve-me de consolação. Ainda assim, pondo a poesia de parte, vejo magia a acontecer todos os dias. Basta-me abrir os olhos.


HARRY POTTER E OS TALISMÃS DA MORTE: PARTE 1 (2010)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM

Título Original: Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1
Realização: David Yates
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Imelda Staunton, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Ralph Fiennes, Bill Nighy, Jason Isaacs, Timothy Spall, Brendan Gleeson, Domhnall Gleeson, Rhys Ifans, Toby Jones

Crítica:

PELA PAISAGEM DESOLADORA

You can't fight this war on your own, Mr. Potter... he's too strong.

Mais do que uma opção comercial, penso que dividir o sétimo livro da saga Harry Potter em dois filmes fez e faz todo o sentido. A franquia merecia um final épico e aprofundado - digno do riquíssimo imaginário criado por J. K. Rowling - contado sem atropelos, com todo o tempo que a história precisa para nos emocionar, para nos fazer arrepiar, rir e chorar e sobretudo torcer pelos nossos heróis ou vilões preferidos. Afinal, foram dez anos de tantas aventuras e desventuras, sustos e perdas e de... tantas esperas. Uma geração cresceu com o pequeno feiticeiro da cicatriz, o rapaz que sobreviveu, à medida que cada tomo lhe enegrecia o caminho. Depois do desmazelo que foi O Príncipe Misterioso, é reconfortante constatar que Harry Potter volta à melhor forma. O nível sobe e sobe muito. Esta primeira parte d'Os Talismãs da Morte não é senão o melhor filme da saga desde O Prisioneiro de Azkaban: cinema em estado puro, desta feita na forma de um incessante, aterrorizante e asfixiante road movie, que nos faz temer o pior a cada instante.

Se disse cobras e lagartos de David Yates na crítica ao filme anterior, a meu ver justamente, há que dizer o melhor no que respeita à sua realização, agora. Inspiradíssimo, revela-se mestre da câmera numa encenação cuidada, estudada e multifacetada na condução das emoções, sejam elas de que natureza forem. Dos close-ups aos planos mais abertos, dos travellings por entre as árvores, a alta velocidade, aos slow motions mais oportunos... a sua linguagem cinematográfica revela-se de uma segurança e atinge uma maturidade inequívocas. Para muito contribui, é certo, o denso e tão bem adaptado argumento de Steve Kloves, rico em pormenores mas lento em expô-los ou em dissecá-los. Diria que o faz lentamente para preservar todo o sabor da história, como aquelas carnes que assam durante longas horas a baixa temperatura. Resultado: desfazem-se na boca. Talvez pela comparação gastronómica se entenda perfeitamente o quão suculento é saborear esta deliciosa experiência cinematográfica.

As cenas memoráveis são inúmeras: desde a abertura pelos céus de Londres, em plena fuga e adrenalina máxima ao inesperado ataque à tenda de casamento do Bill Weasley, da poção polisuco pelos corredores do Ministério da Magia à belíssima animação dos Talismãs da Morte, na pitoresca casa do pai de Luna, do atordoante confronto de varinhas na mansão dos Malfoy à introspectiva fuga pela floresta, que domina toda a segunda metade da viagem, em que os protagonistas se encontram consigo próprios, com o silêncio e com a solidão, enquanto o mundo de mágicos e muggles desaba, depreendemos, perante a maligna ameaça de Lorde Voldemort. Ralph Fiennes é, a propósito, absolutamente assombroso na sua performance; por mais que a caracterização o ajude a personificar as trevas - fisicamente causa calafrios - é pela alma e espírito que impregna toda sua dimensão, toda a sua amplitude. É, certamente, um dos grandes vilões da História do Cinema.

Em busca dos horcruxes, os perigos são mais letais do que nunca. As personagens desaparecem, ferem-se, são torturadas, morrem. O mundo encantado há muito que deu lugar a uma demanda terrífica. O tom é sério e a fantasia é levada a sério. Por isso, dói-nos tanto e tão verdadeiramente quando a tragédia se desfere na mais inocente, querida e heróica criatura, ainda que digital, ainda que de tão lá para trás. Marcou-nos pela sua graça e agora leva-nos o coração às lágrimas. O final é desolador, como desoladora é a paisagem e desoladoras são as circunstâncias que nos apertam o peito, do início ao fim. Dumbledore também tinha merecido uma despedida assim, mas assim não foi. O espírito de Dumbledore permanece e a sua herança mostra-se decisiva para o desenlace.

Eduardo Serra capta essa natureza despida, inóspita, quase deserta, quase morta, com que se espelham as angústias e os medos de Harry, Ron e Hermione. A beleza do quadro é silenciadora, quase tumular. Como se essa viagem dos três - pelo mundo exterior, longe de Hogwarts - fizesse parte de um ritual obrigatório de crescimento e de maturação, quem sabe se preparatório ou decisivo para o que há-de vir. Brilhante trabalho de fotografia.

Alexandre Desplat assume a composição e a orquestração musical; se, por um lado, se distancia igualmente das partituras de John Williams, como o fizera pessimamente Nicholas Hooper no capítulo anterior, por outro jamais os seus temas destoam da proposta de Yates. Pelo contrário, sublimam-na, ao serviço da narrativa e do sentimento.

Por tudo isto, a primeira parte d'Os Talimãs da Morte é um filme, a todos os níveis, magistral. De uma profunda dimensão interior, humana e despojada de artifícios como nunca nenhum Harry Potter tinha sido antes. A ponte perfeita para a conclusão da saga, que se espera novamente plena em pirotecnia e em espetáculo. Se a parte última tratar tão bem o sentimento, as personagens e a história quanto esta primeira, o final será nada menos do que operático e triunfal.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

HARRY POTTER E O PRÍNCIPE MISTERIOSO (2009)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
Título Original: Harry Potter and the Half-Blood Prince
Realização: David Yates
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Michael Gambon, Jim Broadbent, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Tom Felton, Julie Walters, Bonnie Wright, Evanna Lynch, Maggie Smith

Crítica:

O MISTÉRIO CINZENTO

This is beyond anything I imagine.

O Príncipe Misterioso é, facilmente, o capítulo mais decepcionante de toda a saga. Harry Potter sempre teve os seus mistérios intricados, o suspense crescia por meio de pistas e, no final, tudo acabava por fazer sentido. Mas a forma como a história era contada preocupava o espectador, envolvia-o, cativava-o para a investigação de forma activa. Ao sexto filme, o espectador é como que ignorado. A acção atropela-se de episódio em episódio, sem maturar os sinais, sem estabelecer ligações sólidas. A adaptação flui à deriva, desinteressante. Como se bastasse chegar ao ponto Y sem se esboçar como lá se chegou e porque lá se chegou. Sim, O Príncipe Misterioso é o mais esquecível de todos os filmes Harry Potter.

Nicholas Hooper distancia-se em demasia das sonoridades originais e o filme perde identidade. A música jamais se alia ao poder emocional das interpretações dos actores, despotenciando as cenas e lesando, irreversivelmente, o produto final. Tão-pouco a encenação é estudada, procurando arquitectar momentos icónicos ou minimamente marcantes. A linguagem é banal, como se se realizasse um episódio de uma série televisiva de terceira categoria, mas com um grande orçamento. Há pouco cinema, neste pedaço, e não esperaríamos isto de uma saga com o estrondoso impacto simbólico e cultural que Harry Potter alcançou, dentro e fora do circuito cinematográfico. Ainda para mais no ponto escaldante em que A Ordem da Fénix nos deixou; curiosamente, pelas mãos do mesmo realizador. Aqui tudo arrefece e os fait divers amorosos (que também constam do livro, é certo) ganham protagonismo sobre a história central e transversal aos vários filmes. Este desequilíbrio é um erro. E depois, sendo que todo este filme deveria preparar-nos para o seu trágico desfecho - para o adeus de uma das personagens mais queridas e importantes deste fantástico universo - O Príncipe Misterioso falha em apostar no elo entre o protagonista e o mártir, ausentando este último da maior parte da acção.

Bruno Delbonnel, criativo diretor de fotografia, pinta aqui um dos seus mais pobres trabalhos artísticos, caindo no facilitismo da saturação cromática, dos filtros e de um cinzentismo atroz, que suja e ofusca o eventual esplendor do design de produção e da mise en scène. O melhor do filme são mesmo os actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson dão cada vez mais de si, conferindo profundidade às suas personagens. Michael Gambon conquista o seu lugar enquanto Albus Dumbledore e Jim Broadbent é um memorável Horace Slughorn, como aliás já são, por tradição, todas as adições ao elenco ditas secundárias.

Após uma continuação tão desconexa, resta a esperança de que a saga não esteja nas mãos erradas... e condenada a um clímax inglório.


HARRY POTTER E A ORDEM DA FÉNIX (2007)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM

Título Original: Harry Potter and the Order of the Phoenix
Realização: David Yates
Principais Actores: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Imelda Staunton, Michael Gambon, Helena Bonham Carter, Alan Rickman, Emma Thompson, Tom Felton, Julie Walters, Gary Oldman, Ralph Fiennes

Crítica:

A REBELIÃO SECRETA

Every great wizard in history has started out as nothing more
than we are now - students. If they can do it, why not us?

Lançados os primeiros quatro filmes, eis-nos chegados, exactamente, a meio da saga do jovem feiticeiro mais conhecido - e mais amado - em todo o mundo: Harry Potter. A Ordem da Fénix marca a chegada de David Yates à realização (e, de certa forma, à sétima arte, uma vez que o seu passado atrás das câmeras se fizera, até então e praticamente, na televisão). Ao mesmo tempo que se recupera o espírito dos primeiros tomos (a abertura no final do verão londrino, entre a execrável família muggle e as incontroláveis e proibidas práticas mágicas, seguido das aventuras e desventuras ao longo do ano lectivo em Hogwarts, sempre com novidades pouco fiáveis entre os professores), este novo filme faz o necessário ponto de situação, invocando memórias passadas, convocando personagens anteriores e introduzindo, inclusive, flashbacks. Assim prepara a assombrosa e tão aguardada recta final da demanda, que até ao oitavo filme manterá sempre a assinatura de Yates. Agora que Voldemort regressou, sabemo-lo desde o trágico desfecho d'O Cálice de Fogo, o perigo não só espreita a cada esquina como se adensa e se prontifica a ferir e a matar, sem piedade, quando menos se espera.

Com Yates, a saga ganha uma aura mais contemporânea. Vem a fotografia de Slawonir Idziak, com o seu inesperado grão, maculando a limpidez da imagem, e uma iluminação soturna, tão omnipresente, opressiva e sufocante, tal e qual o conflito interior na mente e espírito do protagonista, ameaçado por sonhos, visões e trevas. Nicholas Hooper entrega composições magistrais, plenas de sensibilidade e bom gosto, ao serviço da comédia, da acção ou dos momentos mais horripilantes, tornando as mais variadas sequências por demais vívidas e entusiasmantes. É o caso, por exemplo, do assalto pirotécnico dos gémeos Weasley ao exame da inquisidora de Hogwarts (cuja sonoridade potencia o comic relief, aliada ao espectáculo visual, muito ao jeito dos fogos-de-artifício de Gandalf, no acto inicial d'A Irmandade do Anel) ou do último acto entre os corredores do Departamento de Mistérios e as intermináveis e copiosas estantes de profecias, entre a opressão dos Devoradores da Morte e a defesa dos Aurores, entre o confronto do Senhor das Trevas e do luminoso Albus Dumbledore. A maravilha e o esplendor visual, o estímulo e o arrepio sonoro... feitos potencialmente mágicos para a experiência que é viver a fantasia em frente a um ecrã, absolutamente transportado e absorto nela.

A adaptação do livro terá cortado, certamente, muitos momentos deliciosos e ricos em pormenor. Não obstante, A Ordem da Fénix chega-nos como um capítulo coeso, pleno de ritmo e de essência narrativa. A história flui, alicerçada por personagens de peso, interpretadas por escolhas de casting ao mais alto nível. A destacar a brilhante Imelda Staunton, tão hilariante e cor-de-rosa como dissimulada, odiosa e assustadoramente sádica. Os restantes nomes continuam as suas construções de filme para filme e, todos sem excepção, são tão memoráveis: Alan Rickman e o seu sempre misterioso e charmoso Snape (neste filme começamos, finalmente, a descortinar o seu passado), Emma Thompson e a sua adorável e míope professora de adivinhação, Michael Gambon e o seu aqui mais distante Dumbledore (na graça do espectador, em eterna luta com a memória do saudoso Richard Harris dos dois primeiros filmes) e tantos outros. Aqui é introduzida ainda a caricata bruxa Bellatrix Lestrange, de Helena Bonham Carter. Por mil cobras e aranhas, que elenco de luxo. Não esqueçamos o trio principal: não mais crianças, Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson cresceram com uma geração. E que estupendos actores se fizeram, a avaliar pelas personagens que, notavelmente, trabalharam e aprimoraram, ao sabor da escrita de J. K. Rowling.

Com A Ordem de Fénix, as peças brancas do tabuleiro movimentam-se, na sombra e na clandestinidade, ganhando alento e crescendo em número e estratégia. O Mal terá combate à altura, antevemos. E cada vez mais vibramos com a série, com um mundo que tão sedutoramente nos encanta e fascina. O feitiço está lançado e, a avaliar pelo que aqui assistimos, promete.


sábado, 5 de agosto de 2017

MAMMA MIA! (2008)

PONTUAÇÃO: BOM
Título Original: Mamma Mia!
Realização: Phyllida Lloyd
Principais Actores: Meryl Streep, Amanda Seyfried, Stellan Skarsgård, Pierce Brosnan, Colin Firth, Julie Walters, Christine Baranski, Dominic Cooper, Myra McFadyen, Niall Buggy

Crítica:


You can dance, you can jive, having the time of your life...

A ILHA DE AFRODITE 

See that girl, watch that scene, diggin' the dancing queen!

Leve, descontraído, descomplexado, despretensioso e, por isso mesmo, absolutamente irresistível. Assim é Mamma Mia! A cada cena, uma explosão de frescura, de jovialidade. As eternas canções dos ABBA, numa musicalidade orelhuda, nostálgica e contagiante, envolvem-nos e levam-nos, transportam-nos, alheam-nos da nossa realidade. Viajamos para o azul do mar, para a verdejante e solarenga costa grega. Batemos o pé, entregamo-nos ao riso e queremos lá saber do resto. Estamos a divertir-nos, a divertir-nos genuinamente, como poucas vezes a ver um filme. Às tantas, damos por nós a cantar e a cantar - já conhecemos os temas, fazem parte da nossa vida. Se ainda não fazem, será uma questão de instantes. Camaleónica, a deusa Meryl Streep surpreende como nunca, depois de tantos papéis inesquecíveis, de tantas personagens arrebatadoras. Sem preconceitos, assim se vê o calibre do qual são feitas, tão-somente, as actrizes maiores. Ela canta, dança, salta, chora, emociona, vibra como uma adolescente, demonstrando que a idade é, verdadeiramente, uma questão de espírito. Gravou The Winner Takes It All, na sua cena mais intensa e comovedora, de uma só vez. Benny Andersson, membro dos mítico grupo sueco, chamou-lhe, por isso, um milagre. Não admira.

O elenco é soberbo. Para além da ímpar protagonista, a hilariante Julie Walters (e quando digo hilariante, é hilariante mesmo; é ver para crer) e a mais lírica mas igualmente estouvada Christine Baranski, formam as Donna and The Dynamos!, as amigas cinquentonas e solteironas. Depois, o trio de hipotéticos pais: Pierce Brosnan, Colin Firth e Stellan Skarsgård, outrora risíveis hippies; quem diria. Não se estreando propriamente, é com Mamma Mia! que Amanda Seyfried é catapultada para as luzes da ribalta, com a sua voz de anjo e os seus tão expressivos olhos. O mesmo para Dominic Cooper, que assim alcançou maior reconhecimento. Todos cantam os seus próprios versos, havendo temas para todos brilharem, para todos terem o seu momento. E isso é imprescindível para a solidez narrativa e para a sua dimensionalidade. Até os figurantes cantam, qual coro, arrancando - não raras vezes - as mais incontidas gargalhadas. A cena mais emocionante, para mim, é aquela (ainda no primeiro acto) em que Donna conquista - à rotina mundana - dezenas de seguidoras (mães e mulheres) pela villa fora até ao cais, lembrando que ainda são capazes, que ainda são jovens, que ainda podem ser felizes. É, para o espectador, um misto de sorriso, arrepio e lágrima sentida. É o próprio exemplo, meta-diegético, de Streep. É, pois, inspiracional.

You are the dancing queen!
Young and sweet
Only seventeen!


Guarda-roupa, cenografia e fotografia aliam-se numa paleta de cores quentes, privilegiando os azúis e os púrpuras ao sol e as mais variadas luzes ao luar. Até o visual é festivo, alegre, contribuindo para a good vibe do filme, ou não se tratasse este do denominado feel good movie. Phyllida Lloyd, adaptando o sucesso da Broadway e despojada de purismos desnecessários, entrega a sua acalorada e tão empática visão cinematográfica com as desejadas simplicidade e eficácia; o tremendo êxito comercial do filme, aliás, fala por si. Fez muito money, money money, pois é puro honey, honey. Mamma Mia! tem o condão de encantar espectadores de todas as gerações e de agradar a toda a família. Sempre enérgico, sempre pulsante. Julgo que só um ser profundamente aborrecido possa odiar, verdadeiramente, este filme. Até os créditos finais são de acompanhar até ao fim. Oh, eu assisti este no cinema. E foi tão bom.

You're a teaser, you turn 'em on
Leave 'em burning and then you're gone
Looking out…


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A PAIXÃO DE SHAKESPEARE (1998)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: Shakespeare in Love
Realização: John Madden
Principais Actores: Gwyneth Paltrow, 
Joseph Fiennes, Geoffrey Rush, Judi Dench, Tom Wilkinson, Colin Firth, Imelda Staunton, Ben Affleck, Steve O'Donnell, Tim McMullen, Steven Beard, Jim Carter, Sandra Reinton, Simon Callow, Martin Clunes, Rupert Everett

Crítica:

Who is that?

COMO ROMEU E JULIETA

Nobody. The author.

l don't know. It's a mystery como pode o fruto de tão eloquentes interpretações, tão arrojada produção artística, tão inspirada e bem-disposta fluidez narrativa e tão bela dedicatória ser apenas recordado por factores que lhe são puramente externos - pelos prémios que ganhou a concorrentes seus, mais ou menos memoráveis. Isso sim é injusto, isso sim é redutor. Nenhum filme se torna melhor ou pior pela estatueta que recebeu ou deixou de receber. Compreendo o fenómeno, até posso - em certa medida - rever-me e concordar com ele, mas tendo a desvalorizá-lo... porque A Paixão de Shakespeare é um triunfo absoluto do espírito e da arte. Também o foram A Vida É Bela, A Barreira Invisível e O Resgate do Soldado Ryan, cada um à sua maneira. Foi um ano de grande colheita para o cinema, não restam dúvidas. Mas o mérito de uns não significa o desmérito de outros. Ainda para mais, sendo comédia, A Paixão é logo à partida menosprezada, como se pertencesse a um género inferior; preconceito que seriamente me incomoda. Não há géneros menores. 
Feita, a jeito de introdução, a defesa a que a memória e o tempo tão claramente têm resistido, passemos à crítica ao filme.

A Paixão de Shakespeare propõe a viagem no tempo e a ficcionalização biográfica do poeta e dramaturgo. É, portanto e sobretudo, uma proposta. Uma proposta criativa, baseada tanto em factos como em rumores, como na liberdade poética de quem cria um objecto artístico deste tipo. É uma visão pós-moderna, que transpira - por todos os poros - uma admiração e reverência absolutas às palavras e construções das peças e sonetos, parafraseando muitos dos seus mais icónicos versos e expressões. 
Marc Norman e Tom Stoppard concretizam um argumento admirável. Na sua Paixão ecoam, desde a abertura, referências a Hamlet e a'O Mercador de Veneza e o desfecho alude à génese da Noite de Reis e da Tempestade, sendo que o seu âmago imagina as origens de Romeu e Julieta, reflectindo-a engenhosamente no romance entre o poeta e Viola (magnetica e magnificamente interpretados por Joseph Fiennes e Gwyneth Paltrow), ambos efervescentes nos actos, nas palavras e no amor... Não se propõe Romeu e Julieta a ser senão a peça sobre o amor... love like there has never been in a play. A paixão ardente das palavras e das declamações incendeia cada interpretação, à qual se aliam as sonantes e desfrutáveis composições musicais de Stephen Warbeck, influenciando a cadência da montagem (David Gamble) e o próprio ritmo narrativo. De um certo prisma, A Paixão de Shakespeare tem uma natureza musical - não sendo nunca um musical, a música influencia decisivamente o movimento (a coreografia dos corpos e das câmeras) e a acção (os acontecimentos e o tempo diegético). A música não acompanha, a música é intrínseca a cada cena. Um pouco como aconteceu noutra ficcionalização biográfica de época absolutamente assombrosa e igualmente pontuada pela comicidade: Amadeus; ainda que neste caso o facto do protagonista ser o compositor da própria música confira outra importância e dimensão a cada trecho escutado.

Há cómico de situação (da tortura aos pés de Henslowe, ao bigode de Thomas Kent, aos coitos interrompidos de Rosaline, ao disfarce de ama de Shakespeare, entre tantos outros), de linguagem (rol interminável, pelas mais variáveis bocas: I am the 
money!, the show must... go on!, too late, too late!) e de personagem (desde o clamoroso e agourento vigário ao jovem John Webster, sanguinário e amante de ratos, à própria personagem de Geoffrey Rush, sempre de um lado para o outro, cobrando o seu patronato e assegurando que tudo vai acabar bem, quase numa garantia metadiegética). Há um elenco portentoso, assegurando um talento coletivo preponderante: juntam-se aos já referidos nomes como Tom Wilkinson, Imelda Staunton, Colin Firth, Simon Collow, Martin Clunes e Mark Williams. E claro, Judi Dench como Queen Elizabeth, que em poucos minutos ofusca com o seu carisma e poder interpretativo. E não menos, seguramente, com o seu majestoso guarda-roupa e caracterização - categorias ao mais alto nível nesta obra. Estaremos, aliás e muito provavelmente, perante um dos melhores charriots de Sandy Powell, uma das melhores designers e estilistas da indústria.

Pouco me interessa se foi o melhor do seu ano. Isso vale o que vale. Agora, quantos filmes do género existirão e que poderão rivalizar com ele? Pois é, muitos poucos. Talvez perfaçam, tão-somente, uma mão cheia. Deles, A Paixão de Shakespeare sempre será um dos mais charmosos, cativantes e românticos filmes. Um clássico absoluto, a ver e rever sempre... sempre com o mesmo fascínio e com o mesmo deleite. Com o encanto e a doçura comparáveis... - perdoem-me a imagem, mas é irresistível, até pelo esplendor visual da obra - ao melhor dos cupcakes.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O HOBBIT - A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
Título Original: The Hobbit: The Battle of the Five Armies
Realização: Peter Jackson
Principais Actores: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Luke Evans, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Aidan Turner, Lee Pace, Billy Connolly, Ken Stott, Graham McTavish, William Kircher, Cate Blachett, James Nesbitt, Stephen Fry, Ryan Gage, Benedict Cumberbatch, Ian Holm

Versão Alargada

Crítica:


LÁ E DE VOLTA OUTRA VEZ 

If more people valued home above gold,
this world would be a merrier place.

A Batalha dos Cinco Exércitos começa em chamas - poderoso e apoteótico - onde o capítulo anterior, A Desolação de Smaug, deveria ter terminado. Talvez por isso o ataque do dragão faça as honras de prólogo, onde outrora sempre constaram sequências reveladoras, decorridas no passado da acção principal. Aquele que poderia ter sido um final impressionante é, agora e desde o primeiro instante, uma abertura operática, ultra-emocionante e que, sem sombra de dúvida, alavanca as expectativas de qualquer espectador-viajante ao mais alto nível para aquela que é a derradeira conclusão da aventura épica.

Se o filme anterior deixou o espectador em suspense, este apressa-se a acudi-lo e, ao fim dos primeiros minutos, já o arrasou completamente. Apetece esmurrar a mesa e gritar: que filme tão bom! Ali está Bard, no cimo daquela quebradiça torre do sino, de arco igualmente quebrado, a apoiar a última lança negra no ombro do filho, Bain, ao sabor do improviso e da convicção, na esperança de acertar na falha da armadura de escamas e de, assim, precipitar o destino do monstro. Cruel destino, a hora em que se cumpre o herói - o humano de entre um colectivo de heróis de outras estirpes. Ali está Peter Jackson ao leme, senhor do filme, na sua mais estonteante e arrebatadora forma.

Concluída a desolação e finalizada que está a missão itinerante das personagens, o filme é outro -sendo que o filme ainda está praticamente todo por acontecer. Nas ruínas de Dol Goldur, Gandalf, Saruman, Galadriel e Elrond enfrentam, espetacular e estrondosamente, o Necromante, fechando esse arco narrativo, estabelecendo a ponte para O Senhor dos Anéis. Todas as atenções se viram então para a Montanha Solitária e para as suas imediações, onde se aguardam os confrontos bélicos aos quais o título, oportunamente, alude. Enquanto que, pelos salões de Erebor e para desnorte dos demais anões, Thorin é assolado pela loucura - pelo chamado mal do dragão -, ainda alheio à localização da Arkenstone, uma multidão de sobreviventes de Esgaroth apodera-se de Dale, pretendendo reclamar, a todo o custo, a promessa de Escudo-de-Carvalho. Nada mais têm a perder. O exército de Thranduil, de silenciosos elfos da Floresta Misteriosa, surge, como por magia, com o mesmo interesse e propósito. Não tardarão a escorrer das profundezas da terra as hordas de orcs de Azog - o objectivo é só um: assumir o controlo da Montanha, ou não fosse ela de um posicionamento estratégico a norte, entre o leste e o oeste, nos planos terríveis que o Mal desenha para o futuro. Juntar-se-lhes-ão bandos de morcegos de Gundabad, com milhares de orcs e trolls. Chegará em auxílio de Thorin o primo Dain Pé-de-Ferro (Billy Connolly), montado num javali e à frente de uma legião de bodes guerreiros, montadas inusitadas mas surpreendentemente bem habilitadas para a buçalidade da guerra.

Surgem machados afiados, que rodopiam de mão em mão, dilacerando cabeças à velocidade da graça e do bom humor. Como nos Campos de Pelennor, há proezas físicas delirantes, que nos surpreendem em catadupa. Há trolls manipulados que nem marionetas, orcs que se catapultam sem querer e Bombur a assegurar o riso fácil mas tão delicioso, aos saltos contra tudo e contra todos. Há avanços e recuos das massas, de corpos ou píxeis mais ou menos credíveis. Julgo que, às tantas, o cúmulo de takes artificiosos prejudica os efeitos dramáticos, que se pretendem crescentes, e o factor humano tende a esvair-se. É a nódoa que lhe aponto, unicamente. Depois há uma perseguição à carroça dos anões pelo rio gelado, que na versão alargada resulta numa corrida non-stop absolutamente desenfreada e alucinante. Tornamos à pulsação acelerada. Também nesta versão, o hilariante embora repugnante Alfrid tem um final merecido e à altura. Que caricatura: os seus comic reliefs são irresistíveis, de tão absurdos no meio daquela agitação. O clímax da guerra e da acção dá-se no Monte dos Corvos. Os efeitos digitais estão à disposição, superando-se nas mais inacreditáveis invenções. Lá, o esperado duelo entre Thorin e Azog. O que começou em fogo... termina no gelo.

Há tantos outros momentos inesquecíveis: a Pietà de Galadriel e Gandalf, a despedida entre Bifur e Bilbo no alto da muralha e na véspera da peleja, a chegada de Dain declive abaixo, as lutas de arco e espada entre Legolas, Taurel e Kili frente aos inimigos, aquele minuto em que Gandalf se senta ao lado do hobbit, após a batalha das batalhas e fazendo por acender o seu teimoso cachimbo, em que se mostram incapazes de trocar uma única palavra que seja, mas o silêncio entre eles diz tudo... ou o regresso ao Shire, com o Fundo do Saco invadido pelos mais pespinetas e interesseiros vizinhos. Tudo acaba onde começou. Só assim se poderá proporcionar um novo começo.

Se é um final digno? Absolutamente. É mais do que esperava. Mais é melhor? Talvez menos fosse melhor. A Batalha dos Cinco Exércitos excede-se facilmente. Apesar de ser o filme mais curto da saga, muito teve que ser criado para o sustentar. Ainda assim, não julgo a narrativa, nem a sua duração, jamais as interpretações e os majestosos feitos artísticos, sobre os quais me debrucei nas críticas aos capítulos anteriores (reduzi-los aqui a esta menção de passagem é tremendamente injusto, mereciam parágrafos). Não é a falha que anula a coragem de um objecto como este nem, tão-pouco, os seus tantos méritos. O que temos é tão bom. Valeu a pena a divisão em três filmes. O Hobbit é uma extraordinária tríade da mais alta fantasia.

O Hobbit não atinge a excelência d'O Senhor dos Anéis; a comparação parece inevitável. Mas e daí? Não tinha que superar o insuperável. A história dos épicos é uma história de permanente e esperada superação. O último tem que ser sempre melhor e maior que o anterior... mas porquê esta pressão? Qual a sua real utilidade? O pecado de Jackson foi a indecisão: parecer querer ceder à pressão e tentar superar-se a si próprio e ao mesmo tempo não. Esta pressão, que tantas vezes afunda a expectativa e a experiência dos espectadores, não é só um factor externo ao filme. Também determinou a sua génese, os seus caminhos e, naturalmente, o seu resultado final. Apesar de tudo, que elevado objecto artístico encontramos aqui. Estabelece-se a hexalogia: uma odisseia como poucas, à qual é sempre tão bom voltar. É como visitar a família, a que tanto amamos e prezamos. E com a qual passamos momentos tão agradáveis.


terça-feira, 2 de maio de 2017

O HOBBIT - As Críticas à Trilogia

O HOBBIT - UMA VIAGEM INESPERADA |  AQUI

O HOBBIT - A DESOLAÇÃO DE SMAUG |  AQUI

O HOBBIT - A BATALHA DOS CINCO EXÉRCITOS | AQUI 

sexta-feira, 28 de abril de 2017

INTERSTELLAR (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Interstellar
Principais Actores: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Michael Caine, Jessica Chastain, Casey Affleck, John Lithgow, Wes Bentley, Matt Damon, Ellen Burstyn, David Gyasi, Topher Grace, Bill Irwin, Josh Stewart, William Devane, Leah Cairns, Mackenzie Foy, Timothee Chalamet, David Oyelowo, Collette Wolfe

Crítica:

PARA ALÉM DAS ESTRELAS

Mankind was born on Earth. It was never meant to die here. 

Um ano depois de Cuarón chegar ao espaço, eis chegada a vez de Nolan. Mas se Gravidade proporcionou uma experiência assaz vertiginosa e claustrofóbica assente num feroz realismo e num regrado rigor científico - poder-se-á mesmo dizer que nunca a ficção científica teve, até então, os pés tão assentes na terra - Interstellar está muito mais próximo do cânone do género (nota-se a influência, por exemplo, da incontornável obra-prima de Kubrick 2001: Odisseia no Espaço) desbravando a imensidão e o infinito ao sabor das hipóteses e das especulações: da ficção, portanto. Pode, é certo, partir de teorias reais e de conceitos mais ou menos generalizados e absolutamente queridos a incursões deste tipo: o esgotamento dos recursos naturais da Terra e o cenário apocalíptico, a lei de Murphy, a inteligência artificial, a teoria da relatividade de Einstein e as derivações de Kip Thorne (consultor privilegiado) - a distorção espaco-tempo, ondas gravitacionais, buracos negros, etc. Interstellar cose-os e articula-os numa manta interessantíssima, construindo o suspense e o enigma de forma não só intricada como ultra-estimulante e eficaz, amarrando irreversivelmente o espectador numa missão permanentemente desconhecida - como, aliás, é marca dos Nolan desde Memento, passando por O Terceiro Passo até A Origem. Os twists multiplicam-se pela narrativa, tornando a acção seguinte absolutamente imprevisível. Não obstante, a viagem desemboca de forma rebuscada, no plano da coincidência e num espectro derradeiramente romântico. Para os amantes da ficção científica, esse não é um problema. Talvez o seja para os fanáticos da ciência.

De um filme para o outro, d'A Origem para Interstellar (tendo a pôr de lado a trilogia do Batman, que pertence a um universo muito específico e particular e em tudo menos interessante na sua filmografia, quando comparada aos restantes títulos), Christopher Nolan passa do mais ínfimo microcosmos (o sonho dentro do sonho dentro do sonho, na mente de um indivíduo) para o mais incomensurável macrocosmos (no tudo e nada do espaço aberto), ainda que a aventura cósmica continue alicerçada na ambição e na grandiloquência do argumento e das propostas visuais, com recorrentes brincadeiras com o espaço e com o tempo - como Nolan gosta de esculpi-los, como se fosse um engenheiro divino, qual Chronos. Se antes desdobrava cidades e as elevava nas alturas, agora visita mundos inóspitos, insólitos e surpreendentes ao olho: planetas de água onde ondas gigantes varrem constantemente a superfície, planetas de nuvens congeladas, onde o céu replica o solo e as personagens parecem passear sobre espelhos, ou buracos negros esféricos ou massivos, com extraordinários poderes de atracção e distorção, que poderão levar os astronautas ao futuro num ápice, enquanto no tempo terrestre as personagens deixadas envelhecem, adoecem ou morrem. Uma das cenas mais emocionantes, a propósito, dá-se aquando do regresso de Cooper (fabuloso Matthew McConaughey) à nave, depois da perigosa experiência no planeta aquoso de Miller, onde cada hora equivalem a sete anos na embarcação. Passaram-se, ao todo e sem que desse conta, vinte e três anos. Cooper dirige-se ao monitor para assistir às gravações enviadas da Terra durante esse período e depara-se com o crescimento e evolução da sua família, nos momentos bons e nos momentos maus que, pela distância, jamais acompanhou. Depara-se com a dor da ausência, a dele e a dos seus entes queridos - e essa dor é por demais insuportável. Mas a sua heróica missão, já sabia, teria essas consequências. Só por meio dela poderia tentar salvar o futuro - dos filhos e da humanidade.

Once you're a parent, you're the ghost of your children's future. 

O foco na relação pai-filhos, muito particularmente na relação de pai-filha entre Cooper e Murph (incríveis Mackenzie Foy, Jessica Chastain e Ellen Burstyn) e no amor incondicional e insondável nutrido entre ambos fazem de Interstellar, provavelmente, a obra mais emocionante do realizador, à data, capaz de medir forças com as pretensões intelectuais da narrativa. O último acto, como o de 2001, projecta-nos no futuro, numa quinta dimensão e numa complexa e duvidosa existência. Sentimo-nos como que suspensos num sonho ou num hiper-cubo interminável e pouco palpável, que nem o astronauta, derradeiramente perdidos, à procura de uma explicação apaziguadora, à procura da luz. Rage, rage against the dying of the light, já declamava, misteriosamente, o Professor Brand (Michael Caine, habitué de Nolan), o mesmo que dizia: I'm not afraid of death. I'm an old physicist - I'm afraid of time. É nesses instantes fulcrais, em que se resolvem as hipóteses sobrenaturais levantadas no primeiro acto, que TARS - o robot com fisionomia semelhante à do monólito de Kubrick - intervém sabe-se lá de onde ou quando e afirma ter reunido preciosa informação quântica, capaz de descortinar os segredos do universo. Que desfecho terá Interstellar?, perguntamo-nos. É provável que o final passe e que não compreendamos bem o que assistimos, depreendemos. Talvez o descortinemos melhor em futuras visualizações. Mas sentimo-lo. Sentimos aquele desenlace. As últimas cenas são desconcertantes, profundamente trágicas e, verdadeiramente, de partir o coração. Fica a certeza de que os instantes finais nos apresentam o amor como elemento essencial para a transcendência, como adianta a citação abaixo, às tantas proferida pela Drª Brand (Anne Hathaway). O amor como espinha dorsal das relações humanas, do sentido da vida e do filme. Esta resolução, apesar de romântica e aparentemente facilitista, transpira tudo menos sentimentalismo bacoco. Não deixa de ser curioso que a maior odisseia pelo espaço culmine numa descoberta interior, como que convocando a auto-reflexão do ser humano. Procuramos lá fora, encontramos cá dentro. A fé no amor faz, afinal, mais sentido do que a fé em tudo o resto. Em Interstellar, Deus nem faz parte da equação.

Love is the one thing we're capable of perceiving 
that transcends dimensions of time and space.

Fiel a si próprio, Nolan entrega-nos, uma vez mais, uma ambiciosa e desafiante combinação de entretenimento excitante e de matéria inteligente, mais ou menos explicativa, num produto capaz de suscitar múltiplas interpretações e o mais inesgotável debate filosófico. O arrojo é do pensamento e das ideias, mas também das interpretações do elenco renomado, dos efeitos digitais (que expandem o imaginário e as proporções da direcção artística, detalhista), da possante sonoplastia (que respeita os silêncios e os sussurros, mas também se impõe num crescendo ensurdecedor e ameaçador sempre que necessário) e da mística banda sonora de Hans Zimmer (que potencia a transcendência no culminar da sonoridade religiosa). Todos os elementos se aliam a bem do espectáculo e do clímax apoteótico.

Note-se, contudo, que o trabalho de câmera nunca é especialmente virtuoso - a maior parte dos planos são fixos e a sua composição é relativamente simples. A maioria dos malabarismos no espaço dá-se não pela acção da câmera (que prefere, como disse, ficar estática) mas pelas naves ou outros objectos que rodam ou se movimentam. A simplicidade é uma arte, menos é mais, mas também pode ser um defeito. E no caso de Nolan e de um filme como Interstellar é claro como o cineasta se apoia tão mais nos seus mais variados departamentos técnicos e artísticos, do que na arte de filmar propriamente dita. Creio que o filme poderia ascender ao patamar da excelência caso o realizador brilhasse mais. Assim brilha somente o autor, o autor visionário, o que também não é dizer pouco, ou não fosse Nolan o autor mais comercial do actual panorama cinematográfico norte-americano. Nolan sabe como alimentar uma legião febril de fãs, ávida do seu estilo e das suas histórias, tornando cada filme seu um retumbante êxito de bilheteiras. Quando as ideias dão dinheiro, um cineasta não tem como não estar nas graças dos grandes estúdios. E ter dinheiro para concretizar ideias audaciosas não é tão frequente quanto gostaríamos, pelo que se trata de um círculo vantajoso para todos os envolvidos. Dinheiro à parte, ganham o cinema e os espectadores.

Interstellar é, pois, puro magnetismo. Será certamente - arrisco e aposto dizer -, uma das mais fascinantes ficções científicas deste primeiro quarto de século. O tempo e só o tempo nos trará, ou não, a confirmação. Não obstante, há quem já a tenha - mas sabemos bem: o tempo...  o tempo é relativo.

terça-feira, 25 de abril de 2017

VISTO DO CÉU (2009)

PONTUAÇÃO: RAZOÁVEL
★★★
Título Original: The Lovely Bones
Realização: Peter Jackson
Principais Actores: Saoirse Ronan, Mark Wahlberg, Rachel Weisz, Stanley Tucci, Jake Abel, Susan Sarandon, Michael Imperioli, Reece Ritchie, Nikki SooHoo, Tom McCarthy, Rose McIver, Courtney Baxter

Crítica:

UM OLHAR DO PARAÍSO

I was here for a moment. And then I was gone.

O mínimo que se poderá dizer de um filme como The Lovely Bones é que é um filme desnivelado. A sua acção decorre entre universos paralelos, visualmente tão distintos que não só nos parecem perfeitamente desconexos, como a água e o azeite, como parecem pertencer, facilmente, a dois filmes completamente diferentes.

A perspectiva de Susie Salmon, assassinada aos catorze anos, mergulha a trama numa dimensão mística e sobrenatural - a visão de Jackson torna-a impressivamente surrealista e fantástica, sempre que a acção se passa no além, no limbo, onde a alma da jovem aguarda a entrada no Paraíso. As imagens são fruto da imaginação de uma rapariga pré-adolescente, depreendemos pelas cores vivas e pela generalidade das concepções criativas com que nos deparamos, mas a artificialidade dos efeitos digitais, em contraponto com a acção tão mais realista no plano terrestre, não deixa de ser insólita. Por mais que os anos 70 de Peter Jackson sejam coloridos, mérito do extraordinário trabalho de fotografia de Andrew Lesnie, do guarda-roupa de Nancy Steiner e da direcção artística (Naomi Shohan, Jules Cook, Chris Shriver, George DeTitta Jr., entre outros).

A experiência torna-se ainda mais inusitada quando pensamos na forma como um drama pessoal e familiar tão intenso, de mãos dadas ao perturbante thriller, pleno de suspense e crime, se desenrola, muitas vezes, ao som de músicas divertidas e leves, quando o humor, mais do que pontuar a acção, a passa a dominar. A dado momento The Lovely Bones acabou de nos mostrar um assassinato, uma família devastada pela perda e uma avó alucinada e caricatural (apesar de tudo, brilhante Susan Sarandon) chega a casa, virando-a do avesso e aligeirando o filme na mais berrante comédia. Por tudo isto, penso que o filme de Jackson perde pela multiplicidade de tons: abraça demasiados registos em tão pouco tempo e, ao invés de ganhar personalidade, perde-a, descarrilando aqui e ali para a novela pop.

Compreendo que seja a adaptação do aclamado romance de Alice Sebold... mas o livro não mostra o limbo como um parque de diversões. E é muito mais sério e aprofundado. No filme, corta-se o caso da avó com o detective policial (Michael Imperioli), por se considerar que seria informação acessória e por isso desnecessária para a história, mas corta-se também a violação, assassinato e desmembramento de Susie pelo monstruoso vizinho George Harvey (Stanley Tucci, irreconhecível e arrepiante), por demais nuclear, dado o tema principal... São decisões de adaptação absolutamente questionáveis, parecem-me. Compreendo inclusive que se almejasse um determinado rating, até aos 13 anos - o filme tal como está fala directamente aos adolescentes. Mas tinha potencial para ser um filme mais adulto, mais negro - e, por isso mesmo, mais tocante e impactante.

Todavia, o livro é o livro. O filme é o filme. E o mais curioso no meio desta confusão toda é que, ainda assim, Peter Jackson assina um filme acima da média. E porquê? Não pelos desempenhos dos pais de Susie: a escolha de Mark Wahlberg para o papel de pai - um papel aqui tão importante - é lamentável. A sua interpretação é miserável. Rachel Weisz, a mãe, lá interpreta o texto, mas podia ser outra actriz qualquer. Então, porque não estamos perante um desastre completo? Essencialmente, pelas magnetizantes performances de Saoirse Ronan e de Stanley Tucci e porque Jackson sabe muito bem suscitar e gerir emoções. The Lovely Bones consegue, apesar de tudo, ser um filme bastante emocional. Ajuda a banda sonora de Brian Eno, por demais comovente, mas sobretudo o expressivo trabalho de câmera, do close-up aos planos mais abertos, e a inteligente montagem de Jabez Olssen. Quando Jackson deixa a comédia de lado e se foca no drama, na tragédia, mas sobretudo na personagem de Tucci e na investigação criminal encabeçada pela irmã da vítima, Lindsey (Rose McIver), no último acto, a atmosfera é tensa e capaz de nos fazer transpirar. Torcemos para que o psicopata seja desmascarado ou severamente punido. No final, fica-nos a ideia de um filme que deslizou entre o visualmente belo, o estimulante, o incongruente e o bacoco, mas que na sua essência - a história e as personagens - lá acabou de alguma maneira por triunfar, acabando por fazer sentido a sua ousada e tão sui generis proposta.

A crítica foi mais ou menos unânime quanto a este filme e, desta vez, a minha voz não destoa do coro. Por mais que goste de Peter Jackson e das suas propostas megalómanas. Aqui simplesmente parece ter andado à deriva e não ter encontrado o rumo certo ou mais apropriado para contar a sua história. Mas Jackson é Jackson e desde O Senhor dos Anéis que qualquer um dos seus filmes vale a pena.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

UM LONGO DOMINGO DE NOIVADO (2004)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★★
Título Original: Un Long Dimanche de Fiançailles
Realização: Jean-Pierre Jeunet
Principais Actores: Audrey Tautou, Gaspard Ulliel, Albert Dupontel, Chantal Neuwirth, Dominique Pinon, Jean-Pierre Darroussin, Tchéky Karyo, Marion Cotillard, Jodie Foster, Urbain Cancelier, Jérôme Kircher

Crítica:

O ETERNO VÔO DO ALBATROZ

Manech aime Mathilde! Mathilde aime Manech!

Três anos depois do genial e exuberante O Fabuloso Destino de Amélie, Jean-Pierre Jeunet volta a convocar a graciosa Audrey Tautou para estrelar noutra das suas mais belas e românticas obras, concretizando um autêntico e surpreendente díptico: sobre Paris, sobre a esperança e sobre o amor.

No filme de 2001, a cidade, agora mais o campo, mas ainda assim os comboios transportam-nos por variadíssimas vezes à gloriosa capital de outras eras: passeamos pelas ruas, ladeadas pela imponente Ópera e pelas fachadas da época, tornamos à Gare d'Orsay, magicamente renascida. A recriação histórica é impressionante, assim como é o nível de entrega e detalhe da direcção artística (Aline Bonetto). Antes abundavam os verdes e as cores vivas, agora os tons esvaídos e amarelecidos, quase dourados pela luz do entardecer. Enquanto Amélie é um filme solar, Um Longo Domingo de Noivado é um filme crepuscular. Outrora o tom era alegre e optimista - o acordeão de Yann Tiersen tudo contagiava. Agora é sôfrego e pessimista - as cordas de Angelo Badalamenti prolongam a angústia da ausência, auspiciam o medo da perda e reflectem a profunda consternação e a assustadora desolação na Terra de Ninguém. A carnificina é impiedosa.

Amélie e Mathilde partilham a mesma actriz e a mesma fé no amor. Só que a primeira vive um tempo privilegiado - nos anos 90 do século XX, a França não enfrentava qualquer guerra. Era tempo e espaço de paz, propício a coisas boas. Ideal para viver o amor na mais plena felicidade. A segunda vive a trágica e desumana Primeira Guerra Mundial e as feridas do confronto abrem-se entre os amigos, os familiares e os amores - e muitas delas irreversivelmente, impossibilitando a cura ou a cicatrização. Quando Manech é alistado para as trincheiras, dá-se a inevitável separação do casal e quando o maçarico é dado como morto, a paixão de infância entre os dois assume-se condenada pelo destino. Mathilde recusa-se a fazer o luto e a acreditar que perdeu, para sempre, o seu amado e empreende uma obsessiva e incansável investigação em busca da verdade dos factos, por mais que os sinais (e as suas engraçadas superstições) apontem, repetidamente, para a mais cruel das evidências. E esta é a comovente e avassaladora história de Um Longo Domingo de Noivado: a luta e a obstinação de uma mulher, contra tudo e contra todos - até contra o destino, para reencontrar o seu precioso Manech ou, então, a prova irrefutável da sua morte. Só perante a certeza absoluta poderá sossegar o coração, chorar o que tiver a chorar e retomar, finalmente, a sua vida. A esperança é a última a morrer, porque o amor não pode morrer. Daí o símbolo recorrente do albatroz, que presenciou a consumação do amor dos dois naquela casinha à beira-mar. A ave que acompanha as embarcações nas suas mais demoradas viagens. O ser que, contra qualquer vento, persiste o seu vôo. O albatroz não é senão a metáfora de Mathilde. E Manech é o seu barco. Por isso as memórias de Mathilde se prendem tanto àquele belíssimo farol. Só da alta lanterna poderá perscrutar todo o mar e o esperado regresso. Irónico que o avião que dispara sobre Manech, enquanto este marcava MMM (Manech aime Mathilde) num tronco moribundo, se chame albatroz. Como se o próprio destino estivesse confuso no futuro a atribuir-lhes.

O argumento condensa em si próprio um universo de personagens e pormenores tão rico do qual só as grandes histórias são detentoras. Prima pela confluência perfeita de registos tão distintos como o romance, o drama, o humor... ecoando a fórmula de Amélie, com recorrentes flashbacks que contam o passado das personagens, assentes nas suas mais hilariantes ou curiosas particularidades. O cómico de situação pontua - e alivia - todo o filme. As reminiscências do realismo mágico, tão característico de Jeunet, piscam-nos o olho, aqui e ali. Grande parte do elenco secundário transita directamente do filme anterior: Dominique Pinon (habitué de Jeunet por excelência) e Urbain Cancelier à cabeça. São ainda introduzidos nomes como Marion Cotillard, Jodie Foster ou Albert Dupontel. O filme começa por apresentar-nos os cinco soldados da Bingo Crépuscule, entre os quais se encontra Manech, destinados ao regresso a casa antecipado... ou à morte antecipada, não tivessem todos eles ferido uma das mãos, intencionalmente. Cada um é minuciosamente apresentado, pois cada um será preponderante na demanda de Mathilde, que está por vir. Mas é claro, às tantas a investigação e o romance dão lugar ao filme de guerra. A sonoplastia e os efeitos especiais superam-se então com notável sofisticação técnica, a bem do espectáculo, da acção e do esplendor visual. A fotografia de Bruno Delbonnel é verdadeiramente assombrosa, engenhosa nos planos, na saturação cromática ou no jogo da paleta e em criativa sintonia com a montagem de Hervé Schneid. Dois profissionais de renome, aliás, responsáveis também pela obra-prima de 2001.

Nunca é demais lembrar o quão incontornável é Amélie, tendo-se tornado o filme francês mais popular das últimas décadas, em todo o mundo. Este maravilhoso Um Longo Domingo de Noivado nunca alcançou o mesmo sucesso, tendo inclusive caído em relativo esquecimento nos anos sequentes à sua estreia. Talvez possa não atingir o carisma e a eloquência de Amélie, mas é um filme igualmente deslumbrante, certamente mais denso e intenso e derradeiramente apaixonante. Os dois filmes dialogam entre si, são como irmãos. E enquanto cinéfilos, amantes de cinema, poderemos sempre ficar com os dois. Eis, magistral, o incomensurável poder da arte. E do amor...

quinta-feira, 20 de abril de 2017

VÍCIO INTRÍNSECO (2014)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★ 
Título Original: Inherent Vice 
Realização: Paul Thomas Anderson
Principais Actores: Joaquin Phoenix, Katherine Waterston, Benicio Del Toro, Owen Wilson, Josh Brolin, Reese Witherspoon, Sasha Pieterse, Jena Malone, Maya Rudolph, Martin Short, Yvette Yates, Peter McRobbie

Crítica:

O HIPPIE GANZADO 

 Motto panukeiku... motto panukeiku! MOTTO PANUKEIKU! 

Termina o filme e o título, oblíquo e a neon verde, invade o fundo negro. O violino dá lugar ao mais relaxado sintetizador electrónico da Any Day Now, de Chuck Jackson. Paz e amor, paz e amor, tudo acaba bem, mas a nós o que nos invade é um sincero WHAT THE F*CK! Duas horas e meia depois de ter começado, Vício Intrínseco não nos deixa pedrados, deixa-nos para lá de confusos e seguramente arrependidos da nossa lucidez. Mas que raio de filme foi este? O que é que se passou aqui? Talvez, se tivéssemos acendido um espirituoso e bem provido charro, estivéssemos melhor preparados para assistir a um filme assim, tão... alucinado. Absolutamente rendidos à magnetizante e inesquecível moca do hippie de Phoenix e à esquisita compleição narrativa (e ao seu hilariante non-sense), a partir do romance original de Thomas Pynchon, o certo é que não conseguimos desviar o olhar até ao final. Quer dizer, talvez alguns espectadores desistam ao fim de alguns minutos. Talvez outros tantos, entre o desnorte e os bocejos, abandonem a sessão a meio, inteiramente frustrados. Não é talvez, é certamente - basta sondar algumas opiniões aqui e ali. Ainda que completamente distinto no tom e no tema, Vício Intrínseco assemelha-se ao anterior de Paul Thomas Anderson, The Master, no grau de dificuldade e exigência interpretativas levantadas ao espectador. Porventura, será ainda mais difícil, ainda mais exigente. Alguns espectadores, como eu, chegarão ao fim, orgulhosos e contentes - não negarão que se riram e que gozaram um bom bocado -, mas não farão ideia, ou muito pouca, da história a que assistiram. Eu cheguei ao final e não só não sabia da história como não sabia o que dizer do filme. Só sabia que tinha gostado. E então o que fiz? Passei dos créditos finais aos iniciais. E comecei a ver de novo.

Vício Intrínseco é um noir - o mistério adensa-se, entre nuvens de fumo, ao longo de todo o filme. E continua depois de acabar; só não sabemos se por negligência nossa. O caso é resolvido, os caminhos para lá chegar é que são bem sinuosos. Gordita Beach, Califórnia. Anos 70 do século XX. Phoenix - absolutamente camaleónico e genial, elevando-se ao nível dos maiores actores da actualidade e, provavelmente, dos lendários - é Doc Sportello, um detective particular, de cabelos compridos e fartas suíças, quase sempre de óculos de sol, descalço ou de sandálias, mas sempre sobre o efeito mais ou menos despreocupado, anestesiado ou paranóico das drogas, sobretudo do haxixe. As drogas são o seu vício maior, inerente à sua condição, à sua natureza, mas não menos o amor que sente pela ex-namorada Shasta Fay (fabulosa Katherine Waterston), que tão claramente não consegue ou não quer esquecer. Quando esta lhe propõe um caso, a investigação começa... e o filme também. Começam a aparecer personagens e mais personagens, cada uma com uma nova pista ou uma nova proposta de caso - às tantas a baralhação é tanta que até o próprio escreve o nome de todos os intervenientes num quadro e faz por estabelecer as conexões necessárias, com vista a orientar-se. As personagens e os seus relatos contradizem-se uns aos outros e até a narradora - Sortilège (Joanna Newsom), amiga de Doc e por isso muito pouco isenta e fiável - lança achas na fogueira. No fim de contas, todas as personagens revelar-se-ão de alguma forma relacionadas e todos os casos poderão ser um só grande caso, provocado pela mesma pessoa ou pela mesma organização. A história poderá nem ser a coisa mais intricada do mundo, mas a forma como está contada é que é o grande segredo - e o grande reflexo da qualidade e inteligência da obra. As personagens, repletas de particularidades, são riquíssimas e as cenas memoráveis variadíssimas. A minha preferida é a cena de sexo, num só plano, entre Doc e Shasta - absolutamente brilhante: da persistente massagem com os pés nas pernas do hippie até se deitar sobre ele e quase a tocar na câmera, desafiando o enquadramento e o tesão do protagonista.

Mas o que dizer do cómico de situação, imperioso e absurdo, de grande parte das cenas? Aquela em que Doc mira o amigo (amigo?) polícia Bigfoot (Josh Brolin) a saborear, ao volante e apaixonadamente, um fálico gelado? Ou aqueloutra em que agentes do FBI começam, um por um, a esgaravatar os seus narizes? Ou aqueloutra em que Jade (Hong Chau) se ajoelha perante a colega Bambi e, demonstrando a promoção para detectives, naquele bordel de esvoaçantes bandeirolas vermelhas no meio do nada, começa a dar à língua? E aqueloutra em que o Dr. Rudy Blatnoyd (Martin Short), entre snifadas e tresloucadamente, abandona o consultório, desapertando as calças? E o que dizer da excelência do serviço da empregada de Sloane (Serena Scott Thomas), mulher do desaparecido Mickey Wolfmann, que a servir uma bebida a Doc esbarra a sua curtíssima mini-saia a dois dedos da sua cara? O que dizer do agressivo e repetitivo pedido de panquecas de Bigfoot? Do encontrão propositado dos bófias, quando Doc vai a caminho da esquadra? Da representação da Última Ceia, entre pizzas e colares floridos? Vício Intrínseco é um valoroso filme de momentos e de personagens. Absolutamente seguro da sua forma. Tem a confusão de The Big Sleep de Hawks, o disparate e o ridículo comum a tantos dos filmes dos Coen (Doc lembra inevitavelmente o Dude de Jeff Bridges), as longas conversas (e os pés, tantos pés!) de Tarantino... mas, referências à parte, Vício Intrínseco é tanto as marcas do P. T. Anderson, o autor: na arte de filmar, na complexidade da trama, na profundidade e tremenda dimensão dos seus protagonistas, no retrato de uma determinada década da cultura americana. Sobressaem os azúis e os amarelos entre a iluminação de Robert Elwist, Leslie Jones é mais ou menos simples mas sempre eficaz ao leme da edição e Jonny Greenwood, também ele habitual colaborador, é responsável por uma banda sonora por demais contagiante, que reúne também algumas das icónicas canções da época, entre as quais Journey Through The Past, de Neil Young, Vitamin C dos Can e a minha predilecta, a gloriosa Les Fleurs, de Minnie Riperton.

P. T. Anderson não repete um filme que seja. A cada filme, uma aposta ganha. Não falha uma vez que seja. Não admira, pois, que seja um dos artistas mais estimulantes, interessantes e consistentes do panorama cinematográfico actual. O que é Vício Intrínseco? Sobre todas as coisas, mais um filme para a vida, que cresce a cada visualização. Para um verdadeiro cinéfilo, de nada serve abandoná-lo, pois ele jamais nos abandonará.

domingo, 16 de abril de 2017

O MENTOR (2012)

PONTUAÇÃO: MUITO BOM
★★★★ 
Título Original: The Master
Realização: Paul Thomas Anderson
Principais Actores: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Laura Dern, Rami Malek, Jesse Plemons, Price Carson, Mike Howard, Katie Boland, Ambyr Childers, Jillian Bell, Joshua Close, Madisen Beaty

Crítica:

O SABRE DIVIDIDO 

 I don't think Freddie is as committed to the cause
as the cause is committed to him. 

Por vezes, podemos encontrar mais verdade numa apreciação negativa do que numa positiva. A internet é um universo por demais vasto e rico, onde abunda a leitura copiosa e superficial e escasseia, definitivamente, o pensamento próprio. Entre a crítica dita profissional e o exercício da cinefilia mais apaixonada ou dedicada, considerada amadora, podemos encontrar um oceano de opiniões contraditórias acerca de um determinado filme. É assim com todos os filmes. É assim com tudo. Alguns filmes, todavia, pela sua natureza ambígua e, decididamente, mais vaga, tendem a clivar posições de forma ainda mais categórica e contundente. É o caso objectivo de The Master.

Paul Thomas Anderson é um nome consensual no panorama cinematográfico actual - a sua filmografia não abrange, ainda, muitos títulos, mas a genialidade de obras como Magnólia ou Haverá Sangue fala por si e não deixa espaço para dúvidas. Talvez por isso mesmo o fascínio sobre The Master seja maior. É um objecto de interpretações memoráveis, de imagens altamente magnéticas e, no entanto, ao fim da primeira visualização, estranhamente bizarro e profundamente enigmático... se nos perguntarem - ou se nos perguntarmos - qual o tema do filme, o que raio respondemos nós? Este sentimento é comum à generalidade dos espectadores, críticos ou não críticos, aquando da primeira visualização. Assistido o filme, ainda que não compreendido ou inteira e devidamente percepcionado (se é que isso é possível num filme como este), é o momento para considerações, comentários e opiniões. O que dizer, então, de um filme como este? Admitimos que nos aborreceu e que nos alheámos, durante a sua exibição, em pensamentos distantes? Que P. T. Anderson se perdeu nas suas ideias e que não lhes encontrou o rumo, o sentido? Não, isso seria assumir a nossa incompetência intelectual. Concluimos então que gostámos da proposta, que é um filme complexo, mas que P. T. Anderson é um magistral realizador, ainda que o I didn't get it nos assombre a consciência? Não podemos dizer que não gostámos de um filme do cineasta; afinal, somos cinéfilos de culto. Passada a ironia, eis-me chegado ao ponto crucial do meu raciocínio: há mais verdade em dizer que não se gostou quando efectivamente não se gostou ou não se compreendeu do que dizer que se gostou meramente por uma questão de moda ou de pertença. A maioria dos textos que encontrei sobre o filme derivam de uma primeira visualização e, repito os adjectivos, são tão copiosos e superficiais que não lhes encontro, neles, qualquer verdade. Serei o único a partilhar desta sensação?

Eu assisti a The Master, sei como pode ser tedioso e maçador; não posso negá-lo. Não é um filme para todos e não é um filme para todos os dias. Com isto não quero dizer que seja um mau filme, da mesma forma que um filme divertido e empolgante não é, só por isso, um bom filme. Mas percebo o julgamento detractor - na minha opinião leviano - que recai sobre o filme. Mais vale, neste caso e humildemente, creio, admitir a nossa pequenez perante o génio e assumir a necessidade de mais visualizações para um melhor entendimento da obra. Até porque The Master não tardará a chamar-nos para mais encontros. Talvez tenhamos algo a dizer quando o filme crescer em nós, se porventura crescer em nós, um dia. Ou então, mais vale ficarmos calados. Não temos que opinar sobre tudo o que vemos ou experienciamos - e muitas vezes esquecemo-nos disso. Sobretudo se não temos nada a acrescentar. Por isso, não escrevo sobre todos os filmes que vejo. E quando o faço, procuro pensar, reflectir, pesquisar, estudar e novamente pensar e formular. Por vezes, à segunda ou terceira visualização e perante o prazer da redescoberta, chego a reformular. Os filmes, como nós, são organismos vivos - e ganham vida precisamente pelo diálogo. Sob esse prisma, The Master assemelha-se a uma fonte inesgotável. E à medida que envelhecemos, sabemos, esse é um sinal inequívoco de que estamos perante um muito bom filme.

Tecido o breve manifesto sobre a pertinência da crítica, continuemos a dissertação sobre a natureza intricada da obra. Na verdade, The Master é um filme sobre a dualidade e sobre a frustração de expectativas, pelo que propicia naturalmente este tipo de discussão. A maior parte das suas cenas começa in media res e desvanece na seguinte sem que seja propriamente concluída. A narrativa ignora a tradicional estruturação em três actos e escapa a um clímax claro, pelo que o filme acaba elusivamente. Nunca é tácito, o rumo dos acontecimentos ou o tema da abordagem, dado que todo o filme espelha as suas personagens: seres à deriva, com o futuro imprevisível. Falo mormente de Freddie Quell, fenomenal desempenho de Joaquim Phoenix - mais magro, semi-curvado e de mãos na anca, braços arqueados, a falar sobretudo por um dos lados da boca, absolutamente irascível e agressivo, assolado pelo desnorte. De perturbado veterano de guerra a fotógrafo temperamental e problemático, de agricultor fracassado e tóxico a céptico e depois aplicado discípulo, sempre mergulhado no álcool, sempre viciado em sexo. Mas não falo menos de Lancaster Dodd, intensa e brilhante performance de Philip Seymour Hoffman, carismático líder d'A Causa, um novo culto religioso e filosófico, criado pelo próprio, mais ou menos baseado na Cientologia. Os dois, Freddie e Dodd, são como opostos e, ao mesmo tempo, o espelho um do outro. São como dois gumes de uma mesma espada. O primeiro representa o ser humano mais selvagem e animalesco, que se deixa dominar pelo impulso, desejo ou instinto, pelas necessidades mais fisiológicas. Dodd chega a compará-lo com um dragão, possante e indomável. No entanto, é do seu dragão interior que Dodd tenta escapar, pelo pensamento, pela palavra. O pensamento e a palavra são, portanto, a sua espada, capaz de matar o monstro e de purificar o espírito. Esse é o secret to living in these bodies that we hold, que o próprio afirma ter descoberto, e a essência d'A Causa. A sua doutrina não é, portanto, senão um escape à sua essência natural, pelo auto-controlo, procurando não ser escravo das emoções: Man is not an animal. Man is an enternal spirit.

A partir do momento em que as vidas de ambos se cruzam, nasce uma relação de fascínio mútuo. O primeiro, que simplesmente vive o seu ego sem se preocupar com os outros, jamais se auto-questionou - e, se alguma vez o fez, satisfez-se e saciou-se rapida ou momentaneamente, pela masturbação. O segundo criou uma ilusão, procurou atribuir-lhe um sentido e, na sua hipocrisia fundamentalista, encontrou conforto e apaziguamento às suas dúvidas existenciais. Na sua necessidade de evangelizar a humanidade, como se ditasse a verdade, amainou o ego. Ao primeiro agrada-lhe a companhia do segundo porque finalmente cessa a sua errância, estabiliza e encontra alguém que consigo se preocupa, decidido a curá-lo. Como se fosse encontrar a salvação ao se tornar quem não é. Este é o princípio da atracção de novos fiéis e seguidores para um determinado culto. O segundo agrada-lhe a companhia do primeiro porque 1) poderá fazer dele uma cobaia para os seus métodos curativos e 2) sabe que Freddie é tudo o que não consegue ser ou não tem coragem para ser, na sua organização simulada: genuíno e visceral. Isto lembra-me, de certa forma, os heterónimos de Pessoa, Alberto Caeiro e Bernardo Soares - o primeiro o anti-metafísico e o segundo, tal como o ortónimo, amaldiçoado por pensar demais e condenado pela consciência de todas as coisas.

Por se tratar de um debate interior, suscitado por Dodd, a maior parte dos planos são fechados e fixos, ou de movimentos muito subtis. Ainda assim, de uma simetria impressionante, ao melhor estilo de Wes Anderson. Como os dois gumes da espada, perpetuando a dualidade. Quando a câmera se move mais é sobretudo num plano ou outro em que Freddie se movimenta ou caminha. E quando raramente o plano abre é como se uma lufada de ar reanimasse um corpo arquejante, lembrando-nos a beleza da natureza: em campo aberto, fugindo Freddie desenfreadamente, ou em pleno deserto, desaparecendo de mota e a alta velocidade no horizonte. Como se na natureza encontrasse o caminho da libertação ou o caminho para casa, longe do confinamento dos espaços fechados. Freddie, sabemos, não é um animal de cativeiro. O azul profundo do mar, que ciclicamente pontua a obra, enche-nos da mesma sensação de liberdade ou de plenitude - perante a beleza e a redentora simplicidade da natureza, qual a pertinência dos métodos exaustivos d'A Causa? A religião é um porto de abrigo para todos os que consigam viver sobre essa alçada. Todos os restantes, se tentados, enfrentarão um teste à paciência e à sanidade mental. Não são necessariamente sem-abrigo. Simplesmente prosperam noutro tipo de construção. Até determinado ponto, Freddie e Dodd são perfeitamente incompatíveis. Simultaneamente, é como se uma espécie de afecto e ligação emocional - animalesca, completamente animalesca e pura e incontrolável - os unisse. Note-se como os dois rebolam pelo chão, como cães, quando Freddie é libertado da prisão. Ali rebola a verdade. Desse ensinamento poderá Dodd tirar as suas próprias conclusões: nem sempre as ideias são mais importantes. Do mais básico sentimento resulta o motivo da união entre os seres humanos - e a real felicidade. Quem é o mestre de quem, às tantas, já não se sabe.

As insólitas composições de Jonny Greenwood - uma vez mais repetitivas e compulsivas, como em Haverá Sangue - acompanham, gozam, satirizam, ridicularizam e expõem. A fotografia de Mihai Malaimare Jr. é um prodigioso portento de enquadramentos, atribuindo a tonalidade à viagem aos saudosos anos 50 do século XX, para a qual contribuem decisivamente também a cenografia e decoração de David Crank, Jack Fisk e Amy Wells e o guarda-roupa de Mark Bridges. Cenas memoráveis são mais do que muitas, abrilhantadas pelo formato 65/70mm e pela excelência dos actores, a que se junta Amy Adams. Podia referir a primeira sessão frente-a-frente entre Freddie e Dodd, mas a minha cena de eleição é a da prisão. Uma vez mais, dividida ao meio: do lado direito, a cela de Dodd - cabisbaixo, meditativo - e do lado esquerdo a cela de Freddie - explosivo, cheio de raiva e força, quebrando ao pontapé a sanita em cacos... Que momento emblemático e por demais representativo da essência do filme. É a sinédoque perfeita.

Tenho a certeza de que ainda vou assistir a The Master mais vezes. A cada vez que o vejo, é ainda mais hipnótico e fascinante e revelador sem deixar nunca de ser misterioso. Um filme singular e de puro deleite; em tudo, extraordinário.

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Nota especial para o lamentável título português.
É daqueles que me recuso, inevitavelmente, a utilizar.
CINEROAD ©2017 de Roberto Simões